domingo, 13 de Setembro de 2009

Amadeo e Lucie


Carta de Amadeo a Lucie

"Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são
Ridículas.


(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)"


Álvaro de Campos

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1910

Minha querida |minha| ou |menina|,

Que momentos felizes passei agora contigo! Como nós nos amamos sinceramente, minha Lúcia! Cada dia me sinto mais capaz de fazer grandes coisas por ti, tu és a rapariga simples, boa, que me quer imenso e que eu adoro. Não descreias, Lúcia. Pensa que temos vinte anos, que existe em frente de nós uma vida, que em breve poderemos juntar-nos, que teremos filhos, produtos do nosso amor, que nós adoraremos. Tua mãe rouba-te a felicidade deste momento, porém, amanhã nada poderá, porque a força do nosso amor passa sobre todos os sacrifícios. Faze o que te disse, eu pela minha parte farei outro tanto. Tem muitas esperanças, está certa que o teu Amadeo te ama muito, e será sempre teu, que todo o seu sonho é fazer-te feliz, ter-te a seu lado e sacrificar a ti toda a sua vida. De resto, tu mereces um grande amor, e tudo que por ti faço não é nada para o que tu mereces. Dizes tu que não tem nada que me prende a ti e eu digo-te que sim; há uma coisa maior que todos os direitos, mais forte que todas as leis, sentimento poderoso, indomável – o nosso amor.

Confiança em mim podes tê-la Lúcia. Tu conheces-me bem para saber que eu tenho uma alma de fidalgo, que a minha nobreza nunca se sujaria numa infâmia.

Está tranquila, Lúcia, e tem muitas esperanças como eu tenho. Nós faremos como eu te disse e verás que tudo irá muito bem. Cura-te antes que tudo, porque sem saúde nunca teremos felicidade.

De resto, tudo marchará como eu te disse, é infinitamente simples e infalível. Teremos outra vez a tranquilidade desejada e saberemos apreciar melhor a felicidade.

Não é verdade que o sofrimento ensina a apreciar melhor os momentos felizes? Pois mais tarde nós recordaremos quanto temos sofrido um pelo outro e saberemos apreciar melhor a nossa felicidade. Tudo isto são lições na vida.  Dir-se-ia que todos estes acontecimentos dolorosos os dirigiu a mão de Deus para que nos amássemos mais.

Sim, Lúcia, eu amo-te mais agora. Amo-te mais porque sofri mais por ti, porque tu sofreste muito por mim. Hoje reconheço em ti qualidades que outrora não via, e cada vez te acho mais digna do meu amor inteiro, da minha vida.

Não julgues que te digo tudo isto para te lisonjear, não, escrevo-te as correr as palavras que me saem num tumulto do coração.

Amemos muito, sejamos sempre bons e nobres.

Até amanhã, o restaurante está a fechar, adeus.

Faz o que te disse e está certa que melhores momentos virão, é o teu Amadeo que te o diz e o teu Amadeo não mente, nunca mentiu.


Adeus, milhares de beijos do que te adora. 

Amadeo

quinta-feira, 23 de Julho de 2009



sábado, 18 de Julho de 2009

Adivinha o quadro


“A Casa é uma teoria volumétrica por entre a vegetação, maior do que todo o Mundo, impossível de arrumar. Por torres e telhados se levanta, paredes de cal alternando com panos de muralha, e um bestiário a habita, nela cirandando ou em torno lhe correndo, heráldicos bichos esguios, indistintos de paisagem. Na construção, que não obedece aos caracteres do meio, um pouco ao revés de certa convicção de sangue da família, a vida se concentra na cozinha que ele virá pintar. É uma quadra enorme e enegrecida, trespassada de aromas que compõem uma história culinária remontando muito além do clã, ao horizonte de raças de loiro baço, olhos de verde sequíssimo, deuses que nas faldas do Marão apenas reclamam exíguos sacrifícios de bagas de arbusto, pequenos mamíferos amedrontados.”

Mário Cláudio, in ________